Mais um investigado

CPI dos Bingos vai decidir se convoca para depor Ruy Barquete, irmão de ex-assessor de Palocci na prefeitura de Ribeirão Preto e diretor de empresa vencedora de concorrência da Caixa Econômica
 
Mais um integrante da família Barquete será incluído nas investigações do caso Gtech. Ruy Barquete dos Santos, diretor de contas da Diebold Procomp, fornecedora de 60% dos produtos para automação bancária no país, é irmão de Ralf Barquete, ex-secretário de Fazenda da prefeitura de Ribeirão Preto durante a gestão de Antonio Palocci, atual ministro da Fazenda. Antes de morrer no dia 8 de junho de 2004, Ralf foi conselheiro fiscal da Funcef, fundo de pensão da Caixa Econômica Federal, e assessor especial da presidência do banco estatal. A Diebold Procomp ganhou em pregão eletrônico, no dia 17 de março deste ano, um contrato de R$ 212 milhões para fornecer 25 mil terminais para toda rede de lotéricas da Caixa, serviço antes prestado pela multinacional Gtech, empresa pivô do Caso Waldomiro Diniz, em 2004.

A CPI dos Bingos, do Senado, investiga a renovação de contrato por 25 meses da Gtech com a Caixa em abril de 2003. O senador Garibaldi Alves (PMDB-RN), rela tor da CPI dos Bingos, quer analisar a execução do contrato entre a Caixa e a Diebold Procomp e pretende convocar Ruy para tentar descobrir se houve algum tipo de participação nas negociações.

O preço inicial proposto pela Caixa para a substituição dos terminais antes operados pela Gtech foi de R$ 614 milhões e obteve no pregão eletrônico um redução de 65,33% no preço final. “Ruy Barquete deve ser ouvido pela Polícia Federal com o apoio da assessoria da CPI”, afirma o senador potiguar . “A redução do contrato é extravagante no sentido negativo da palavra”, acrescenta. O novo modelo de operações, segundo a Caixa, amplia o número de terminais existentes hoje na Rede Lotérica, de 22 mil — sendo 9.300 para operações financeiras e 12.700 para jogos e recebimento de contas— para 25 mil terminais que farão todas as operações.

Para o procurador-geral do Ministério Público no Tribunal de Contas da União, Lucas Furtado, o parentesco entre os irmãos Barquete pode ser “uma inf eliz coincidência”, mas a relação merece investigação. “Nós que estamos acostumados a ver licitações e pregões fraudados acabamos constatando que essas coincidências muitas vezes são articulações ilícitas para obtenção de informações privilegiadas e acordos do mercado”, declarou. Furtado vai depor na quinta-feira na CPI dos Bingos sobre as auditorias feitas pelo TCU nos contratos entre a Caixa e a Gtech desde 2000.

Prefeituras
Ralf Barquete, o irmão de Ruy morto em 2004, es tá no centro das investigações do Ministério Público em São Paulo por suposta participação em fraudes em licitações de contratos de serviços de limpeza em 10 prefeituras comandadas pelo PT, incluindo Ribeirão Preto. O advogado Rogério Tadeu Buratti, acusado de receber propina da Gtech para facilitar a renovação de contrato com a Caixa, era amigo de Ralf. Buratti afirmou uma propina mensal, paga à prefeitura de Ribeirão Preto, de R$ 50 mil pela Leão Leão na gestão de Palocci (2001-2002). O dinhe iro seria entregue a Ralf para se entregue ao então tesoureiro do PT, Delúbio Soares.

O Correio Braziliense publicou na última quarta-feira dados do sigilo telefônico de Buratti . A reportagem mostra contatos, em 2003, do ex-assessor de Palocci na prefeitura de Ribeirão Preto (SP) com o então secretário-geral do PT Silvio Pereira. Buratti também foi recebido no gabinete do ministro Palocci e na Casa Civil em 2003.

Ralf Barquete falava com freqüência com Buratti. Foram mais de 500 ligações em 2003. Barquete também recebeu mais de 500 ligações do celular de Ademirson da Silva, assessor de Palocci. No dia 1º de abril de 2003, data acertada para a assinatura do contrato entre a Caixa e a Gtech, Ralf Barquete trocou 12 ligações com Ademirson da Silva. A assinatura foi transferida para o dia 8 do mesmo mês. Nesse dia, Barquete e Ademirson se falaram outras 14 vezes.
 

Acusados negam favorecimento

Ruy Barquete Santos, segundo a assessoria de imprensa da Procomp, não teve qualquer participação no pregão no valor de R$ 212 milhões, realizado pela Caixa, no qual a empresa foi vencedora. Segundo a nota, Ruy Barquete, que trabalha desde 1992 na Procomp, não atende e nunca atendeu à Caixa. “A Procomp venceu esta licitação graças à sua competência técnica em um pregão presencial extremamente transparente com mais de mil lances.”

A Procomp descarta a possibilid ade de favorecimento. Usa como argumento as datas do processo de contratação. “A audiência pública de apresentação do edital de licitação das loterias foi em 30 de Novembro de 2004 e o pregão presencial aconteceu em 17 de Março de 2005. Ralf Barquete faleceu em junho de 2004.” Embora a Procomp preste serviços à Caixa pelo menos desde 1997, a nota do banco estatal deu uma resposta semelhante. “Os editais foram elaborados entre 30 novembro de 2004 e 30 de dezembro de 2004, e o ex-assessor faleceu em junho de 2004, acometido por câncer, tendo se licenciado da Caixa em julho de 2003. Ruy Barquete nunca foi responsável pelo atendimento à Caixa.”

A empresa Procomp informa que já entregou cerca de 40 máquinas para os projetos-piloto, e mais 1.564 serão entregues até 30 de Setembro. Até Dezembro deste ano, diz a nota, a Caixa receberá mais 12.368 equipamentos. “Em maio de 2006, completaremos a entrega dos 25 mil terminais”. (LL)
 

Memória
No rastro de Waldomiro

Criada em março de 2004 em meio a denúncias de corrupção e tráfico de influência contra o ex-assessor parlamentar da Casa Civil Waldomiro Diniz, a CPI dos Bingos não vingou. Os líderes da maioria não indicaram seus representantes na comissão. O presidente no Senado à época, José Sarney (PMDB-AP), se recusou a fazer as indicações, alegando que ao contrário do Regimento da Câmara, o Regimento Interno do Congresso não prevê que caberia a ele tomar essa atitude.

U m grupo de senadores da oposição ingressou com mandados de segurança no Supremo Tribunal Federal (STF) com o objetivo de assegurar as indicação pelo presidente do Senado. Mais de um ano depois o STF determinou que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB/AL), fizesse as nomeações dos integrantes da CPI. A primeira reunião aconteceu no dia 29 de junho.

A CPI dos Bingos abriu outra frente de investigação a partir do envolvimento de Waldomiro Diniz e do ex-secretário de governo da P refeitura de Ribeirão Preto na gestão do ministro da Fazenda Antonio Palocci, Rogério Buratti, no caso Gtech.A parceria entre a Caixa e a americana Gtech na área de loterias começou oficialmente em 1997, quando assinaram o primeiro contrato de prestação de serviços.

Waldomiro Diniz foi demitido do governo depois de flagrado pedindo propina ao empresário Carlos Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Documentos em poder do Ministério Público indicam que um acordo fechado entre a Gtech, Cachoeira e Waldomiro, em janeiro de 2003, em Brasília, previa que a multinacional repassaria ao empresário seus negócios com loterias nos estados. Em troca, Waldomiro ajudaria na renovação do contrato com a Caixa. A transferência das loterias estaduais, que renderiam ao Cachoeira cerca de R$ 30 milhões em cinco anos, não aconteceu. Na época das denúncias, a diretoria da Gtech confirmou o encontro. A Caixa negou qualquer interferência de Waldomiro na renovação do contrato.
 

Fonte: Jornal Correio Braziliense
Data: 26 de setembro de 2005
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